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25 de mai de 2017

Foto: Reprodução Netflix

Ela era uma princesa de um reino encantado, uma heroína ou até mesmo uma deusa protetora da floresta e dos animais. Trajando seu esplendoroso vestido azul celeste e um delicado véu com uma joia de inestimáveis beleza e valor, ela andava solenemente proferindo seu eloquente discurso sobre amor e amizades eternas. Até alguém abrir a porta e interromper o sonho de olhos abertos da órfã maltrapilha.

Anne, com um E no final, uma dessas garotinhas serelepes e tagarelas, que pode até nos causar uma primeira impressão negativa, mas que se mostra uma pessoa espetacular. Dona de cabelos ruivos e fartas sardas no rosto, ela se divide entre a amargura deste fétido mundo e a magia da imaginação. Sua personalidade forte faz dela uma menina independente, forte e decidida, mas as marcas do passado e a ausência de uma família a tornam frágil e insegura, descrente de sua beleza e seu futuro.

Mas tudo isso muda com um terrível engano. Um destes erros bobos que mudam totalmente a vida dos envolvidos. Foi assim que Anne foi adotada pelos irmãos Cuthbert, que, na verdade, queriam adotar um menino órfão para o trabalho na fazenda. Mas Anne não tinha culpa disso e nem mesmo sabia desse pequeno detalhe e passou toda sua viagem até Green Gables tomada de extrema euforia. 

E não era para menos, depois de tantos anos de solidão, agressão e rejeição, um casal de irmãos solitários e caridosos havia escolhido uma menina para adoção para enchê-la de amor e afeto familiar. Seria perfeito como nos livros. E foi perfeito em cada detalhe, seja ele real ou aumentado por sua imaginação, a trilha mais linda por onde passou, paradisíaca rumo a uma nova vida colorida, longe da apática cor cinzenta da cidade grande. 

Até o erro ser revelado e seus sonhos e esperanças serem atrozmente despedaçados com a mesma força que as palavras longas e complicadas que usava em seu intenso vocabulário. Anne não tinha sido escolhida, era um engano, ainda era a mesma menina rejeitada de antes, chorando um oceano de lágrimas, afundando cada vez mais em seu complexo de inferioridade. 

Mas ela não sabia, muito menos os Cuthberts, que desacertos como esses são a forma que a vida reorganiza as coisas. Dando um empurrãozinho aqui e outro ali. Anne não sabia que o amor surge exatamente nessas condições e que os momentos difíceis não são o fim de tudo, mas apenas montanhas que devem ser escaladas, pois é no alto delas que se pode apreciar a vista. Anne ainda tem muito o descobrir, mas também muito a ensinar.   

Sobre a série "Anne with an e" da Netflix: 


Depois de treze anos sofrendo no sistema de assistência social, a orfã Anne é mandada para morar com uma solteirona e seu irmão. Munida de sua imaginação e de seu intelecto, a pequena Anne vai transformar a vida de sua família adotiva e da cidade que lhe abrigou, lutando pela sua aceitação e pelo seu lugar no mundo. 




Assista ao trailer: 


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23 de mai de 2017


Aquela era apenas mais uma noite sem promessas, havia chovido a tarde e isso garantiu um clima ameno e melancólico àquela banda podre da cidade. O bar musical estava cheio: cheio de almas vagantes e perdidas; cheio de advogados e executivos; artistas, burocratas, filhinhos de papai, cheios de pretensão, animação, depressão...

Na minha mesa, a garrafa dava seus últimos suspiros, um olhar da mesa em frente mirava-nos insistentemente. Alguém pediu Caetano, aquela de sempre, sobre o silêncio da noite. Silêncio do qual todos dali fugiam.

Tantos eram os choros disfarçados de altas gargalhadas. Os risos vazios, sem eco, sem profundidade e sem verdade. Tantos os garotos e garotas sorrindo e dançando procurando por uma nova história, um novo conto, um novo gibi.

Tantos eram os vagabundos se tornando grandes heróis e tantos eram os heróis sem capa se tornando meros vagabundos reclamando do tédio, do vazio e das más escolhas vindas de suas próprias covardias. Brindavam as pequenas alegrias e suas grandes decepções com cerveja barata e careta num copo americano.

Outros se entregavam a inflamados papos políticos. Sobre as mesas: tempestades de ideologias, redemoinhos de discursos repetidos e trovões ruidosos ao choque de ideias. Muito show, situação, opinião.

Ali estavam despidas a alegria e a tristeza. O amor e a desilusão também estavam ali, juntos, dançando ao som qualquer tango. Uma dança para os amores proibidos, covardes, permissivos, vulgarizados e fodidos.

Mas o que me atraía mesmo era o silêncio daquele ali no canto, observando. Me olhava compartilhando o estranhamento e a admiração. Dois poetas com inveja do eu lírico.

Diogo Souza, em 16 de janeiro de 2016

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18 de mai de 2017


Quando acordo do seu lado, tenho uma contraditória vontade de querer dormir e, ao mesmo tempo, ficar acordado. Tudo isso para sentir este calor mágico que envolve o nosso abraço, esse calor que anda curiosamente de mãos dadas com o frio. E, assim, posso sonhar e viver o sonho num momento único em que a fantasia e realidade se encontram e se confundem.

Acordar com você em meus braços é te apertar contra mim e sentir que somos um só. Sentir na pele a carícia do leve toque da tua respiração. É entender as confissões mais íntimas do seu delicado ressonar sobre o meu peito. 

É como se o tempo parasse ou pelo menos ficasse num vai e vem entre o passado e presente. Como se perdêssemos a noção de tempo e espaço, numa viagem à outra dimensão onde somente nos caiba, sem mais nem menos. 

Como se o que tanto tínhamos a dizer já tenha sido dito no mais significativo silêncio. Daqueles raros, sustentados por olhares dizem muito. E que nossos olhos digam tudo. Que eles falem, cochichem, gritem e cantem tudo o que é preciso dizer nessa nossa total desnecessidade de palavras.

Por Diogo Souza, em 23 de fevereiro de 2014
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9 de mai de 2017

Faz um tempo que eu pedi aos seguidores do Cara do Espelho sugestões de temas para posts e vídeos no blog. Um dos temas foi a solidão na era da internet. Quando recebi a sugestão, iniciei um texto com coisas que pensava a esse respeito. Também fiz uma pesquisa na internet sobre o tema e montei uma lista do que eu achava que poderia ser. 


Reprodução: Netflix


Mas eu precisei de alguns meses para realmente entender o que era esse sentimento de solidão em plena era das comunicações digitais. Em mim, isso começou com aquele período em que ficamos cismados das coisas, com as pessoas e seus comportamentos a nossa volta. Então, todas aquelas publicações engraçadas, emocionantes, religiosas e sensuais que apareciam no feed do Facebook começaram a me incomodar.

Foi aí que encontrei um dado que me fez refletir sobre isso. Pesquisadores da Universidade Edinburgh Napier, da Grã-Bretanha, entrevistaram 200 estudantes que são usuários do Facebook e outras redes sociais  e listaram as situações que mais geram estresse. Dos alunos questionados, 12% disseram não gostar de receber novas solicitações de amizade, enquanto que 63% demoram para responder a esses pedidos. Os pesquisados afirmaram que se sentem pressionados para fazer atualizações criativas e manter seus perfis atualizados.

Essas e outras coisas estavam me deixando estressado, mesmo sem eu perceber e entender o motivo. Li que quando estamos sob estresse e ansiedade, as redes sociais e todo esse mundo virtual, que adotamos como real, começam a nos incomodar. E, nessas horas, segundo os especialistas, o melhor para nossa saúde é desconectar.

Então, depois de muito estresse, desativei minha conta no Facebook. Eu até achei que seria o fim desse foco de estresse, mas não. A grande maioria dos aplicativos e ferramentas online que uso para trabalhar estavam conectados ao Facebook. O Spotify, por exemplo, nem ao menos oferecia a possibilidade de logar sem a rede social (problema resolvido com o suporte, que está de parabéns). Tudo dependia do Facebook.

Foi aí que eu comecei a perceber a gravidade da coisa. Estou no Facebook há mais de seis anos e, de lá para cá, foram duas contas e milhares de informações que lancei na web para as grandes empresas do ramo dos algoritmos. Não tinha um dia que não olhasse o face, curtia e comentava coisas, compartilhava meus momentos, meus textos e minhas fotos. E, mesmo quando não tinha nada de interessante, o Facebook ainda dava um jeito de apresentar memórias antigas.

Mas de uns tempos para cá, tenho ficado mais ranzinza, é verdade. E toda aquela interação superficial, as brigas de opiniões, as receitas de bolo, as brigas religiosas, os bichíneos fofos e o deboche com a vida dos outros começaram a me incomodar profundamente. Coisas que eu faço e acompanho todos os dias, de repente, me pareciam autopromoção, falso, mentiroso...

Quando me desconectei do Facebook, também tentei diminuir o acesso às outras redes sociais e foi aí que percebi que a coisa era mais grave. Comecei a analisar as coisas ao meu redor. Até a avaliação do Uber, tanto a que você dá quanto a que recebe, é motivo de preocupação exatamente como no episódio “Nosedive” da série Black Mirror, que mostra como a dependência por likes pode afetar a vida de uma pessoa. Em todos os lugares, as pessoas a minha volta estão sempre com o celular na mão, sempre atualizando suas histórias, status e grupos. Uma mesa de bar rodeada de amigos com todos vidrados nos  seus smartphones.

O mais triste é que esses momentos de interação social costumam ser intercalados entre abraços e sorrisos para a selfie e o acompanhamento da repercussão do registro nas redes sociais. Eu precisei me afastar um pouco para ver que eu mesmo faço exatamente a mesma coisa. De repente, achei que o real não parecia tão interessante. A presença física não seria mais importante do que a virtual e distante, via aplicativos. Como de costume, nas mesas da vida, me senti só e precisei pegar o celular para procurar algum tipo de interação. E lá estava eu no ciclo de novo.



Sei que não vou me desconectar das redes. Primeiro, por não conseguir assim fácil e, segundo, por questões de trabalho, nem posso me dar a esse luxo, mas agora estou com mais inquietações do que quando assisti aos episódios de Black Mirror. Quando você vê a coisa acontecendo no seu comportamento, você sente o peso que isso tem na vida. Alguém mais já sentiu assim ou é só mais um devaneio de mesa de bar meu? 

Diogo Souza, 09 de maio de 2017
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Autor

autorEstudante de jornalismo, escritor preguiçoso, poeta fracassado, ligeiramente otimista, irritantemente risonho e comicamente irritado.
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